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 Image Antje Rávic Strubel

As Camadas Mais Frias Do Ar

S. Fischer Verlag
Frankfurt am Main 2007
ISBN 978-3-10-075121-8
192 páginas


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Resenha
Excertos
 

O enredo pode ser contado bem rapidamente, e não prenuncia nada de bom. Anja faz parte de um grupo de alemães orientais já não mais tão jovens assim, que todos os verões levantam um acampamento em florestas suecas. Ela é uma mulher desiludida com sua vidinha em uma pequena cidade do leste, teima em continuar no papel de outsider, mas também sofre por causa dele. Uma moça estrangeira, perturbadora e bela, de nome Siri, se insinua e se aproxima de Anja e ganha sua confiança. Para indignação do grupo, uma renitente história de amor acaba se desenvolvendo entre as duas. No decurso dessa história, Anja descobre a si mesma como um “garoto”, o ciumento Ralf acaba virando estuprador e, no final, está prostrado ao chão diante das duas mulheres, morto por acidente ou talvez com algum objetivo.

Evadidos sociais da Alemanha Oriental, que fogem a uma suposta região agreste, e lá acabam tendo de lidar com os mesmos conflitos dos quais queriam escapar na cidade; eles estão todos na casa dos trinta anos e, no acampamento de férias – ainda que agora na condição de inspetores e diretores –, voltam a vivenciar conflitos de relação e colocar identidades sexuais em jogo; um paraíso estival que acaba sendo infestado aos poucos pela tortura psicossocial, pelo furto e pela chantagem, até tudo acabar em loucura, assassinato e homicídio... Tudo isso poderia bem ser o tema de uma história trivial sobre personagens triviais; personagens como Ralf, que tenta em vão esconder que foi soldado de fronteira na República Democrática Alemã, ou Sabine, cuja ligação forçada com o ocidente se articula em anglicismos igualmente forçados, ou mesmo a narradora lésbica, que conta a história na primeira pessoa. Figuras como essas facilmente poderiam se tornar clichês de um romance sem grande importância.

O risco que a narrativa encara é, portanto, bem alto; ele é superado de modo tanto mais cabal pela soberania com a qual a autora domina sua narrativa. Depois de um olhar mais cuidadoso, fica claro que na história não acontece nada daquilo que parece estar acontecendo. O que começa como literatura barata, prova ser uma obra de arte lingüística refinada e profundamente inquietante. E isso começa já na escolha do palco em que se desenrolam os acontecimentos. A Suécia do livro oferece não apenas uma “paisagem regrada e formada naturalmente”; se encarada com exatidão, essa paisagem nem se encontra na Suécia. Pois, uma vez que na história narrada as fronteiras existem apenas para ser dissolvidas, essa paisagem, por si só meio anfíbia, já ultrapassa as fronteiras que dão na Noruega, exatamente no meio daquele lago em que os personagens gostam tanto de nadar. Também a figura de sílfide da personagem Siri parece ter escapado a uma genuína narrativa neo-romântica, e ainda assim é uma criatura altamente artificial.

Inclusive seu nome, a narradora o inventou diante de nossos olhos, como se estivesse lendo um escrito invisível. Será que ela deveria se chamar “Siri” ou, ao contrário, “Íris”? Na reversibilidade do nome, nessas quatro letras irisantes, é que o tema da narrativa é amarrado: ele caracteriza a pergunta acerca da identidade, do poder de nomear, da biografia, e a possibilidade de que tudo e qualquer coisa, a qualquer momento, pode ser lido pelo avesso.

A própria narradora recebe, quando a estranha Siri lhe dirige a palavra pela primeira vez, um novo nome: “Schmoll” [algo que lembra, amuo, fazer beicinho, porque refere diretamente “Schmollmund”, que significa, “boca de lábios cheios”], uma idéia divertida, que apenas através da repetição imperturbável se torna um tanto sinistra. Da mesma forma, não existe uma explicação totalmente desprovida de dúvidas sobre o amor entre as duas mulheres. “Você é um garoto muito esperto”, diz Siri à narradora. O corpo que pertence à voz narradora, nós o vemos apenas através do próprio olhar da narradora no espelho: uma jovem mulher vestindo jeans e blusa, “unissex”. E esta é uma palavra casual e definitiva. Anja sabe quem ela mesmo é. E agora a presença daquela estranha quebrava, com a suavidade tenaz da água corrente, não apenas sua resistência, mas inclusive a identidade tão pouco amada.

Com a mudança de sexo, a narradora também muda de idade. Quando a Anja de trintona se transforma em Schmoll, ela passa a ter apenas catorze anos, e o sexo é uma descoberta que ela ainda não fez. Quando a narradora olha pela segunda vez sua imagem do espelho, cem páginas depois, os contornos do eu há tempo já começaram a se dissolver: “Eu me contemplei, a mim ou ao garoto, nós não sabíamos a quem pertencia aquele sorriso, ele me tornou diferente.” A palavra mais sinistra nesta frase é “nós”, pois a mulher que a pronuncia está sozinha.

Isso são apenas insinuações, possibilidades de um jogo palimpséstico cada vez mais aberto. A dissolução, em câmara lenta, das oposições responsáveis por conceder orientação, o desaparecimento paulatino do chão sob os pés, se transforma aqui em uma experiência de leitura. Será que o nome de Siri não foi apenas inventado, será que, além disso, ela não foi apenas uma visão, uma alucinação da narradora? Mas em quem ainda poderíamos confiar, nesse caso? Às vezes os enigmas parecem instrumentalizados demais, aí o mistério da narrativa quase se transforma em mistificação. Mas isso não chega a causar danos ao charme desse livro, que é contado de maneira tão inteligente quanto sugestiva, e que trata, ele mesmo, da questão da língua. Inclusive o ato sexual é, antes de mais nada, um acontecimento lingüístico: como se o “corpo fosse definido em palavras”, apenas consigo mesmo.

No brilho frio da arte lingüística de Antje Rávic Strubel, os abismos se abrem na contemplação de objetos banais. É assim que a narradora vê o campo de areia no acampamento: “O campo brilhava. Ele jazia ali como se estivesse debaixo de uma camada de óleo. Era uma superfície que jamais se rasgava, que sempre se fechava imediatamente quando um corpo mergulhava nela. Eu tentei não entrar em pânico.” Quem responde ao pânico de desaparecer é a evocação precisa de uma ventura dúbia e penumbrosa, e que ainda assim jamais pode ser apreendida: ali “uma faixa de vapor de água sempre pairava na fronteira entre sombra e luz, e ela se levantava do chão coberto de juncos, desviava de mim e se desfazia”. A estreita faixa fronteiriça entre luz e sombra: ela não é apenas o pano de fundo dos acontecimentos, mas também um herói secreto da narrativa: “Da luz eles sabiam tudo”, está escrito na primeira frase. “Eles a conheciam em todos seus sombreados.”

Se ali todos de fato sabem tudo sobre a luz, não se pode dizer. Mas a narradora com certeza sabe. Em cada cena, em cada instante ela tem consciência da luz, faz com que ela apareça e depois desapareça como uma personagem em ação, como um poder numinoso. Ela jaz refulgente sobre o telhado de zinco, paira lívida atrás dos pinheiros, faz o céu espumar ou penetra na água; nessa luz, os personagem aparecem “recortados agudamente na manhã”.

Assim como nos quadros impressionistas as coisas não estão presentes, simplesmente, mas são produzidas apenas pela luz como sua materialização fugidia, assim também os cenários e figuras deste romance parecem ser o efeito de uma luz incompreensível e sempre cambiante; também isso não deixa de ser um estereótipo das terras do norte, que a autora reinterpreta de maneira virtuosa. O que quer que se possa ver ali, é sempre o produto ativo ou sofrido dessa luz. Até que a luz, no final, se dissolve em um cinzento inescapável, nas camadas mais frias do ar.

Heinrich Detering
Dezembro de 2007
[Traduzido por: Marcelo Backes]
© F.A.Z. 2007



  
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