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 Image Sibylle Berg

A viagem

Kiepenheuer & Witsch Verlag
Colônia 2007
ISBN 978-3-462-03912-2
340 páginas


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É melhor alertar aqueles que nunca tiveram em suas mãos um texto de Sybille Berg antes de se aventurarem a ler os seus livros. Com sua crítica implacável, sua ironia mordaz e seu ódio ao nosso mundo imperfeito, essa autora só pode ser comparada a poucos outros que atualmente escrevem em língua alemã. No entanto, os seus fãs – e não são poucos – amam-na precisamente por isso! Depois de seu bem-sucedido romance de estréia de 1997, Ein paar Leute suchen das Glück und lachen sich tot (Algumas pessoas buscam a felicidade e morrem de rir), Berg não apenas conquistou renome como escritora, mas também como dramaturga e colunista. Sua obra mais recente, o romance Die Fahrt (A viagem), editado no segundo semestre de 2007, sem dúvida representa um novo auge de sua criação literária.

“Quisemos ir embora porque queríamos encontrar a felicidade. Queríamos deixar a pobreza, a mesmice, queríamos ir embora das nossas vidas”. É assim que se poderia resumir o tema principal (e o sofrimento) de Die Fahrt. Nenhum dos protagonistas – dos quais há mais ou menos três dúzias – está contente com a sua vida, cada um deles quer torná-la, de uma maneira ou de outra, mais confortável, acolhedora, rica, alegre, repleta de sentido, simples, melhor. E assim o romance se transforma em uma grande busca pela felicidade.

O subtítulo de Die Fahrt avisa que se trata do gênero romance. No início, parece estranho, uma vez que o leitor encontra 79 capítulos, cada um sendo uma história fechada, quase uma seqüência de roteiro. Cada um deles é intitulado com o nome de um personagem e a referência de um local. À medida que se lê o livro, descobre-se que vários dos protagonistas dos capítulos aparecem mais de uma vez, e que os seus caminhos até podem se cruzam. Da mesma forma, alguns dos eventos são contados duas vezes, a partir de diferentes perspectivas. Algumas das histórias são ligadas por uma espécie de ação-moldura, o que não necessariamente torna a designação do gênero romance obrigatória, porém mais compreensível.

Do ponto de vista de sua origem, sua formação e seu modo de vida, os personagens de Berg são tão díspares quanto os países e as cidades em que os encontramos. Assim, por exemplo, topamos com Miki, a atriz pornô de Los Angeles, ou Igor, o mineiro alcoólatra da Ucrânia, Parul, a jovem mãe que trabalha quebrando pedras numa favela em Bangladesh ou Mr. Ling, o médico chinês que se tornou milionário graças ao comércio com órgãos humanos de presidiários. Por mais diferentes que sejam os personagens, todos eles têm em comum a sua insatisfação com o “aqui e agora”.

Aqueles que podem pagar percorrem o mundo para descobrir “se há um lugar [...] que pudesse mudar tudo”. É o caso de Helena, que “viajou por quase todos os países sobre os quais existe um [guia de viagem] Lonely Planet”. Ou Ruth, que larga tudo para encontrar o seu suposto grande amor em Israel para, pouco depois, ser abandonada por ele. Os outros, que não dispõem de recursos, são obrigados a permanecer onde estão e sonham – quando têm forças para tal – de uma vida diferente. É gente como Olga, do Quirguistão, que se encontra regularmente com homens ocidentais na esperança de que, algum dia, algum deles a leve “para longe desse lugar que ela jamais poderia deixar com forças próprias”.

“Tudo é um grande acaso – isso de nascer-em-algum-lugar-e-ter-que-ficar-ali-agüentando” – assim como os personagens, o leitor é levado a refletir sobre isso. Ao pôr em seqüência o problema da sobrevivência daqueles que precisam ficar e as ‘preocupações de luxo’ dos que podem partir, as cenas da verdadeira miséria são ressaltadas com especial nitidez e, assim, ficam mais impressionantes. O contraste entre a infelicidade imaginária e a real é ainda mais enfatizado no nível estilístico. A arte narrativa muito elogiada de Berg - que consegue apresentar de um jeito divertido até mesmo as verdades mais amargas com um misto de leve cinismo e distância irônica - transforma-se, nestes casos, em uma descrição impiedosa e geralmente isenta de ironia. Percebe-se que não há mais o menor motivo para rir. Nenhum mesmo.

Será que o mundo é um lugar tão triste assim?, é a pergunta que surge. A resposta de Berg não deixa muita margem para interpretações. Não existe nenhum lugar bonito, com exceção de alguns poucos oásis, como a Suíça, aquele “pequeno sanatório bonitinho”, ou a Islândia, parcamente povoada. Solidão, pobreza, sujeira por toda parte. Como se quisesse tornar o assunto inesquecível, Berg apresenta variações quase infinitas da miséria e da biusca fracassada pelo sentida da vida e da felicidade. Depois da metade do livro, no mais tardar, achamos que conhecemos já todas as facetas. Mas Berg continua escrevendo, repetindo, variando. Há sempre novas tentativas de se apoderar da felicidade, mais uma viagem, mais um lugar novo, apenas para se asseverar da triste certeza de que, neste mundo, não pode haver nenhum desenvolvimento e nenhuma espécie de felicidade que seja duradoura.

Em alemão, não é nenhuam coincidência que o romance tenha sido intitulado Die Fahrt e não Die Reise. Em português, ambos são traduzidos pela palavra “viagem”. Mas as “viagens” (Fahrten) dos protagonistas não têm nada a ver com a “viagem” (Die Reise) enquanto típico motivo do romance de formação, enquanto imagem que traduz o desenvolvimento intelectual e espiritual dos personagens. Ao contrário. Só se vislumbra uma saída possível da miséria quando alguns personagens amadurecem a certeza de que este mundo seria “um lugar mais alegre” se não nos levássemos tão a sério, se nos considerássemos como “pequenas partes de um todo grande”. O que permanece em aberto é o grau de seriedade com que Berg considera essas saídas possíveis, uma vez que elas têm uma suspeita semelhança com as profissões de fé daqueles que, no livro, são criticados de maneira especialmente ácida, “aqueles europeus entediados com a sua existência que vêm para cá por causa da espiritualidade”, aqueles que procuram um sentido esotérico na vida e os fanáticos praticantes de ioga, que esperam encontrar um sentido para a sua vida nos ensinamentos orientais.

Não resta dúvida: este livro não é nenhum refresco. O olhar negro de Berg que perscruta o mundo e seus habitantes dificilmente deixará o leitor indiferente. Felizmente, no entanto, ela não se notabiliza tanto por essa visão de mundo impiedosa, e sim pela sua fascinante capacidade de observar, a sua habilidade associativa inesgotável e a sua verve irônica, que transformam a leitura em um deleite intelectual e estético. Pois até a falta de esperança ainda pode ser divertida quando até um papagaio quer se enforcar como sintoma de que Nova York gera depressões, ou quando se descreve a Alemnha como sendo “um país inteiro parecendo pão preto fatiado e empacotado”.

Em resumo: leia Die Fahrt. Você não esquecerá mais deste livro!

Anne Nordmann
Junho de 2008
[Traduzido por Kristina Michahelles]



  
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