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|  | | È uma espécie de viagem para o além a que o narrador (na primeira pessoa do singular) empreende no novo livro de Uwe Timm. Num dia qualquer cinzento de novembro, ele vai ao cemitério dos Inválidos, em Berlim e é conduzido pelas fileiras de jazigos por um senhor magro de sapatos de fivela e sobretudo marcado na cintura. Tal como o Virgílio de Dante, este senhor, chamado de “o cinzento”, conhece os moradores daquele território, explica ao seu protegido suas origens e biografias, dá esclarecimentos e conta histórias. Os mortos tomam a palavra sem serem convidados e o narrador acaba sendo um ouvido em outras dimensões. Um cluster sonoro de vozes se espalha por aquele lugar inóspito, um coro de testemunhas de época através dos séculos. Generais, almirantes, aviadores, líderes da SA, soldados rasos, civis. Alguns têm o estilo militar disciplinado, orgulhosos, incorrigíveis, os outros dão a impressão de estarem desconsolados ou quebrados. Há defuntos famosos como Scharnhorst, von Richthofen ou o famigerado Heydrich.
Juntos, representam o legado da História alemã, das guerras de conquista de Frederico II às guerras de unificação de Bismarck e até a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, do militarismo prussiano aos horrores dos nazistas. O exemplo da aviadora Marga von Etzdorf revela o que o contexto histórico significou para as trajetórias individuais. Ela é o centro gravitacional de um mosaico sofisticado. É em torno desta mulher, que no seu traje de couro representa o advento de uma nova feminilidade, tornou-se uma estrela com seus vôos de longa distância e escolheu o suicídio aos vinte e cinco anos, que se agrupam as vozes mais frequentes ao longo do livro.
Halbschatten (Penumbras), eis o título desta colagem de vozes. No fundo, o conceito já abarca todo o empreendimento estético: os personagens vão ganhando contorno e vulto numa alternância de luz e de sombras, mediada pelas diferentes falas dos mortos. Luz e sombra também têm um papel no nível temático, pois são os elementos que configuram espaços japoneses e as diferentes gradações de sombras ajudam a compreender a escuridão.
No cerne do livro, uma história de amor. Depois de aterrissar no Japão, Marga von Etzdorf conhece o cônsul alemão Christian von Dahlem, também aviador, que escapou por um triz à morte na Primeira Guerra Mundial graças a um estojo de cigarros prateado. Ela logo o atrai com o seu jeito soberano de quem conhece o mundo.
Dahlem lhe oferece para se alojar em seu quarto, dividindo-o em duas partes com ajuda de uma cortina. No decorrer da noite, desenrola-se uma conversa íntima sobre paixões que, num primeiro momento, só é perceptível para o outro como teatro de sombras. O clima de erotismo, no entanto, não tem conseqüências, só o estojo de cigarros é passado por baixo da cortina. Dois anos depois, Marga procura um patrocinador para um voo à África. Dahlem lhe dá uma idéia e Marga empreende a viagem em missão nazista. Depois de uma aterrissagem acidentada na Síria ela se mata com um revólver. O passo parece ser a conseqüência não apenas do amor não correspondido, mas também da experiência de ter sido instrumentalizada.
Naturalmente, nada disso é apresentado de maneira unidimensional e linear. O mistério da morte prematura da jovem é o elemento de tensão do romance. A toda hora, Uwe Timm interrompe a conversa noturna. Os habitantes do cemitério se metem, cada um dá o seu palpite. Quem intervém com a maior frequência é o ator Miller, fascinado pela audácia dos voos de Marga e que adoraria tê-la seduzido.
Inspirado, talvez, na sutileza dos sinais da arte japonesa, Uwe Timm desiste de construir um desdobramento épico dos vários níveis narrativos e, em vez disso, carrega de simbolismos alguns outros elementos; os aviões, o estojo prateado de Dahlem com estilhaços de balas japonesas, vasos japoneses feitos de cacos. Além disso, o escritor faz com o leitor o mesmo jogo que Dahlem encenou com Marga, utilizando-se de técnicas narrativas para fazer dele uma figura mefistofélica e ambígua.
À primeira vista, o diplomata parece receber a sua convidada com grande franqueza. Ele a introduz na beleza da pintura e da cerâmica japonesas, faz com que ela lhe conte seus segredos e fala da mulher de um amigo com quem teve um caso. Assim como Marga, o leitor se deixa ludibriar pelo seu jeito charmoso e não percebe que o diplomata permanece totalmente opaco. Pois ele é o único que não fala no túmulo. As suas afirmações são reproduzidas através das recordações de Marga e Miller. Assim, o ponto de fuga secreto dos acontecimentos continua difuso. Só lá para o fim do romance é que o leitor compreende quem é Christian von Dahlem.
Penumbras parece um móbile que flutua, dança e continua aberto em várias direções. Os fatos reais são complementados por elementos ficcionais ganhando, assim, uma nova abordagem. De maneira sutil, Uwe Timm aponta para as condições históricas e intelectuais que fizeram despontar o nacionalsocialismo. O aspecto terrível da época surge com Heydrich, o estrategista do holocausto e que inventou “cadastro de inimigos” para companheiros do partido infiéis, cuja voz aguda contrasta com a sua aparência marcial. E com o próprio Dahlem que, com sua postura apolítica e sua falta de escrúpulos, abre o caminho para os carrascos nazistas. Só Marga von Etzdorf se mantém incólume, apesar de suas aterrissagens malsucedidas e o ocaso do mito da mulher aviadora. Sua morte é um destino tipicamente alemão.
Maike Albath
Agosto de 2008
Tradução do alemão: Kristina Michahelles
Publicado pela primeira vez no jornal Frankfurter Rundschau em 29/08/08
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