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 Image Christoph Türcke

Filosofia do Sonho

C. H. Beck Verlag
München 2008
ISBN 3406576370
240 páginas


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Resenha
Excertos
 Esta viagem nos leva da pré-história até a atualidade digital, vidrada por uma tela; nos conduz dos submundos da consciência humana ao cenário completamente iluminado dos escritórios e ao mundo da TV. Quem lê a Filosofia do Sonho de Christoph Türcke percebe que este livro abrange muito mais do que o seu título parece supor. Trata-se de nada menos do que a estrutura básica do pensamento e do sentimento; trata-se da história humana do sonho e da vigília, e juntamente com a filosofia também são abordadas áreas como a antropologia e a neurologia, a psicologia e a sociologia midiática. Sem o sonho - isto Türcke nos deixa claro desde o início – o ser humano não teria se tornado aquilo que ele é; e apesar de os animais também sonharem, é no trabalho psíquico realizado pela espécie humana, através dos sonhos, que está armazenado todo o plano da história de sua civilização.

Este filósofo que leciona em Lepzig desdobra o panorama dessa história da civilização em três grandes capítulos: “Sonho”, “Pulsão” e “Palavra”. Para tanto, a interpretação do sonho, proposta por Sigmund Freud, oferece um sistema de coordenadas. Ainda assim Türcke ultrapassa o fundador da psicanálise em muitos aspectos, examinando as passagens contraditórias na obra de Freud e se atrevendo a propor novas abordagens que vão além da psicologia já estabelecida. Antes, porém, o livro se atém à “era pré-histórica dentro de nós”, como Türcke descreve, “aquele sedimento do ato de pensar que o trabalho neurológico, durante séculos e com dificuldade, foi depositando no Homo sapiens”. Os hominídeos, que através de um trabalho minucioso e cheio de dedicação fizeram ângulos em pedregulhos, desviaram sua atenção do alimento para o instrumentário – aqui ocorre uma transposição decisiva da energia que envolve a pulsão, um treino de resistência que se aperfeiçoou por milhões de anos e que produziu os primeiros vestígios da cultura. Em virtude desta luta pela sobrevivência se desenvolveu também a constituição física do Homo sapiens; o seu cérebro grande e sua habilidade manual acompanham a capacidade de adiar a pulsão.

Condensação e deslocamento – dois conceitos centrais na obra de Freud, A Interpretação dos Sonhos, – também são os fios condutores da abordagem filosófica de Türcke. Em seu capítulo “Sonho”, descreve como Freud, utilizando fortes metáforas, transporta o processo do sonho para um cenário cultural totalmente novo. Dois “artífices” são a condensação e o deslocamento que passam pelo “censor” e contrabandeiam um determinado motivo para o sonho, que por sua vez está assimilando algo que não foi possível ser trabalhado durante o dia. Até mesmo Freud foi obrigado a revidar sua tese segundo a qual o sonho era a realização de um desejo. As pessoas com trauma de guerra que passaram pela primeira Guerra Mundial falam uma outra linguagem, tanto que Freud alguns anos depois introduz a pulsão da morte em sua teoria. Os que voltam da guerra vivenciam uma compulsão traumática à repetição; seu sistema neurológico procura eliminar o horror através da repetição, tentando se livrar dele na medida em que o incorpora. Aqui Türcke escolhe um outro caminho, diferenciando-se de Freud.

Segundo o filósofo, existe algo mais elementar do que o erótico: a pulsão de livrar-se do horror. E é partir de semelhantes compulsões à repetição que se constituí também a cultura. Por que se tolera algo tão trabalhoso como a cultura? Por que se inventa significações, quando também se poderia passar muito bem sem elas? “Nenhum ser guiado pela pulsão faz algo semelhante por puro capricho”, escreve Türcke. Especula que, de forma similar, a antiga coletividade hominídea reagiu às intempéries e aos animais selvagens, repetindo as forças da natureza em sacrifícios ritualísticos. O sacrifício é a mais antiga forma da traumática compulsão à repetição; nele o horror da natureza é condensado e deslocado – um mecanismo que para Freud só começa com a formação do sonho. Apedrejamentos, sacrifícios humanos, funerais – os primeiros rituais ocorrem através da traumática compulsão à repetição que inicialmente só descarrega o insuportável excesso de estímulo.

Nas partes centrais de sua história da civilização, Türcke aposta em uma dificuldade insuportável, em um horror incontrolável e chega assim a uma formação do ser humano verdadeiramente sangrenta: trata-se sempre de um caso de vida e morte, raramente de pulsões cordiais ou até mesmo prazerosas. Só depois do sacrifício humano e do apedrejamento, a sexualidade pode se tornar uma força central de pulsão; inicialmente a sexualidade é um símbolo que designa algo diferente, como Türcke demonstra na epopéia de Gilgamesch.

Através da condensação, deslocamento e inversão do horror externo surge a força da imaginação e consequentemente também a linguagem – são esforços neurológicos que impulsionam o homem. Mas o que é exatamente uma pulsão? Em seu capítulo “Pulsão”, Türcke se arrisca no campo neurológico, descrevendo como a corrente neurológica percorre seu caminho enquanto simultaneamente surgem percursos fixos; e nesta pré-estrutura da repetição ele descobre uma primeira forma física da compulsão à repetição que produz as antigas estruturas ritualísticas. Também aqui um dos pensamentos fundamentais se baseia novamente no medo como o motor central da formação do ser humano. A concepção freudiana de pulsão de morte que questiona o princípio de prazer acaba se mostrando para Türcke como uma pseudo-solução. Em resumo, para Freud a cultura surge a partir de um desejo sublimado, enquanto Türcke coloca a dor no início da história da humanidade: através da traumática compulsão à repetição no sacrifício humano, ou seja, nas mortes ritualísticas, o insuportável se desdobra culturalmente; aqui começa a história do espírito.

No capítulo “Palavra”, Türcke fornece o terceiro elemento que sustenta a sua filosofia do sonho. A força primitiva da imaginação só pode se converter em uma atividade do pensamento realmente humana, quando ela se transforma em linguagem. E também aqui o horror entra novamente em ação: “A força motriz da formação dos sons foi o abalo traumático, cujo excesso de estímulo procurava por saídas. Uma delas é soltar sons, procurando ao mesmo tempo expelir o abalo em si, expulsá-lo do próprio organismo”. A palavra começa, portanto, “como um exorcista” que deseja “livrar-se do horror”. A partir disto o filósofo desenvolve uma teoria complexa da linguagem ou até mesmo uma pré-história da linguagem que começa com a nomeação do sagrado, com um ato que transforma o horror em um poder protetor. Com esta nomeação surge aos poucos também uma estrutura gramática da linguagem por um espaço de tempo imenso.

Infelizmente o último estágio desta arqueologia mental, o posfácio “A era do sonho high-tech”, acabou por ficar conciso demais e pessimista em relação à cultura: a invenção do filme marca uma ruptura epocal – uma imposição que exige demais dos olhos e do poder humano de percepção e que continua atuando cada vez mais no nosso mundo digital repleto de telas, com seus choques imagéticos permanentes. Türcke teme pela capacidade elementar de “parar e refletir”, da assimilação lenta das impressões externas, e em consequência disto teme pela paciência e dedicação. “Cada sequência de imagens alucinatórias, como de um sonho, que é exibida incessantemente por um maquinário imagético que atua globalmente, deixam a força do sonho parecer literalmente ultrapassada: comparativamente suas imagens parecem esmaecidas e sua atividade parece ficar sempre para atrás”. Também em seu livro A sociedade agitada – filosofia da sensação (2002) adverte contra o excesso de estímulos e da agitação contínua; estes, porém, são os clichês clássicos quando ocorre historicamente uma mudança midiática. Nesse sentido a impressão de livros, romances, rádio e outras invenções que no início foram tão temidas comprovam que o mundo não termina assim tão rapidamente por causa de uma nova mídia, ele só se torna um pouco mais intrincado.

O fato da Filosofia do Sonho ser especulativa em pontos decisivos pode ser visto como uma vantagem; Türcke procura reabilitar a especulação como instrumento da filosofia. A explicação que ele faz de toda a cultura baseando-se no horror do homicídio – desde os sacrifícios humanos, passando pelo ritual funerário, chegando ao tabu do incesto e até mesmo à música – não precisa ser compartilhada por nós em todos os seus pontos; existem outras teorias que explicam a formação do homem a partir de motivos menos sangrentos. Ainda assim a Filosofia do Sonho não deixa de ser uma leitura fascinante (também são fantásticas as passagens onde a gramática universal de Chomsky e a falocracia pós-estruturalista de Lacan são rebatidas). Türcke se ocupa de grandes questões sem por isso se dispersar em explicações unidimensionais de caráter psico-evolutivo, sócio-biológico, utilitário ou afins. Como os hominídeos se tornaram seres humanos, ou formulando de uma maneira mais impetuosa, o que o ser humano “é” são as grandes incógnitas que não se deixam decifrar nem de forma puramente espiritual nem puramente científica.

Freud se apropriou de um verso de Virgílio, da obra Aeneis, (“Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo”, “se não posso sujeitar-me aos poderes superiores, movimento então o submundo”). Türcke, por sua vez, faz de Freud o seu Virgílio a caminho dos submundos do sonho. E quem toma a “Filosofia do Sonho” como seu guia, pode se preparar para uma excursão noturna que exige persistência, mas que é ao mesmo tempo original e inspiradora.

Jutta Person
Dezembro, 2009


  
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