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O que são graphic novels? Uma pequena apresentação sobre o tema e apanhado das produções de quadrinhos alemães e internacionais

Por Sebastian Oehler

Nos cadernos de cultura dos jornais alemães têm surgido cada vez mais nos últimos anos o termo Graphic Novel. Editoras sérias anunciam que desejam expandir-se neste segmento. No entanto muitas vezes é incerto como o termo Graphic Novel - ou romance gráfico - é empregado. Daí a constatação talvez um tanto impopular logo à frente: graphic novels são histórias em quadrinhos. Mas não exatamente aquelas engraçadas, as histórias envolvidas por um toque do trivial de Pato Donald, Asterix e Fix e Foxi (gibi alemão protagonizado por um dupla de raposas), e conhecidas ainda da própria infância, na maioria das vezes publicadas em revistinhas ou álbuns, compradas em bancas e talvez escondidas, de modo envergonhado, dos pais e professores.

Quadrinhos são, sem dúvida, mais do que isso e – sem entrar muito na teoria – eles são, por definição, antes de tudo, quadros individuais ordenados em seqüências, na maioria das vezes acrescidos de um texto, que aparece em balões de diálogo. Uma compreensão integral da história apenas por intermédio do texto ou das imagens é pouco provável. Na leitura, os quadros individuais com texto são associados à ação e ao movimento, e com isso a imagem e o texto são simultaneamente compreendidos. Portanto, de onde vem o interesse recém-despertado pelos quadrinhos? Por que, portanto, o novo termo para denominar um velho conhecido ou pelo menos algo semelhante? Provavelmente porque preconceitos ligados ao termo ‚quadrinho’ ainda resistem teimosamente.

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© Reprodukt

Os quadrinhos são freqüentemente identificados com histórias engraçadas, narizes de batata, personagens da Disney e simplicidade lingüística. Quase não se publica um artigo sobre quadrinhos em que não aparecem, no título, onomatopéias como ‚bum’, ‚bang’ etc. Uma tradução literal de graphic novel como „romance gráfico“ segue, através da sua referência ao literário, que não tem a mesma ressonância no termo quadrinho, na direção certa. Ela também não leva a uma definição conceitual seletiva. Os próprios desenhistas também chamam as pequenas coletâneas de contos, por exemplo, de graphic novels. Pode-se também rotular os graphic novels de os outros quadrinhos. O formato é parecido com o de um livro, muitas vezes também com capa dura, e sempre há mais páginas do que as costumeiras 22 a 48 das revistinhas americanas e dos álbuns belgas. Em geral por conta dos custos, mas não somente por isso, eles são feitos em preto & branco.

Uma outra via é escolhida por Eddie Campbell - o desenhista da graphic novel From Hell [Do Inferno], sobre os assassinatos de Jack, o Estripador, no fim do século 19, em Londres-, no manifesto em que ele caracteriza a graphic novel mais como uma espécie de movimento ligado aos quadrinhos, a que pertencem determinados desenhistas e autores, do que um formato independente.

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© Reprodukt

Nos graphic novels, torna-se óbvia a qualidade e, nas obras especialmente bem-sucedidas, também é evidente o fato de que os quadrinhos são mais do que apenas um gênero, a saber, um meio comparável ao cinema ou à literatura. Muitos dos desenhistas e autores estão ou estiveram insatisfeitos com o nível geral do meio. Eles se incomodam com a predominância dos quadrinhos „normais“, orientados para o mero sucesso financeiro, em boa parte as revistinhas de super-heróis publicadas nos Estados Unidos e os álbuns de fantasia ou aventura, que saem na França, que quase não se esforçam por um avanço ou sequer uma utilização inteligente das possibilidades do meio.

O desejo do desenhista é elevar o meio „quadrinho“ a um novo patamar. Por isso a maioria dos graphic novels surge mais da necessidade de contar histórias, do que de estudos científicos de mercado, e é justamente isso que constitui o encanto desta variedade do meio „quadrinhos„. Enquanto, por exemplo, no cinema muitas pessoas estão envolvidas no processo criativo, e na literatura um aparato editorial comparativamente grande acompanha o processo de criação do livro, no desenvolvimento e formatação de um graphic novel somente o autor, ou melhor dizendo, um duo entre autor e desenhista está envolvido. Porque – ao menos por ora – afora algumas poucas exceções, pode-se ganhar apenas pouco ou nenhum dinheiro com a publicação de graphic novels, os autores não admitem acordos e, em vez disso, esforçam-se para obter máxima autenticidade.

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© Art Spiegelman

As diferenças decisivas em relação aos quadrinhos que dominam o mercado repousam, de um lado, no tipo da história e, de outro, no uso das possibilidades gráficas do meio, através de distintos estilos de desenho. Em Maus, talvez o mais famoso dos graphic novels, premiado com um Pulitzer, Art Spiegelman transcreve em quadrinhos as experiências de seu pai com o Holocausto, e seus efeitos sobre sua própria vida e a de seu filho. As formas de abordagem específicas de Spiegelman consistem de contar sua história com a ajuda de personagens animais com características humanas. Os judeus são apresentados como ratos, os alemães, gatos, e a esposa francesa é uma rã – formas de abordagem imagináveis apenas em quadrinhos.

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© 2006 Edition Moderne & David B.

O autor de graphic novels David B. trata, em Epilepsia, da doença de seu irmão. E consegue, através da interação de desenhos poderosos e tocantes, por um lado, e um texto fortemente contido, por outro, transmitir uma impressão duradoura daquela doença e de seus efeitos. Ao lado desses dois títulos há uma variedade de graphic novels admiráveis, não apenas de autores de fora da Alemanha.

Se por um lado autores de quadrinhos da Alemanha como Anke Feuchtenberger, Martin tom Dieck e ATAK tornaram-se internacionalmente pioneiros nos anos 90 por conta das abordagens inovadoras de seus desenhos, por outro, nos últimos anos, uma nova geração de jovens autores e autoras se tornou conhecida e desfruta de um sucesso crescente no exterior, comparável ao dos autores alemães de prosa. Entre os títulos desta nova geração alemã de narradores estão, por exemplo, Held (herói) e Sag was (diga algo), de Flix (ambos da Carlsen), Wir können ja Freunde bleiben (podemos ser amigos, sim) de Mawil, Acht, neun, zehn (oito, nove, dez) de Arne Bellstorf, Insekt (inseto) de Sascha Hommer e a recém-lançada Liebe schaut weg (amores, olhem para o outro lado) de Line Hoven (todos da Reprodukt).

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© Carlsen

É evidente, na maioria destes títulos, a referência autobiográfica; Flix conta em Held, sua primeira graphic novel, toda sua vida, do nascimento até a morte; Mawil relata, com charme, suas desventuras amorosas; Arne Bellstorf mostra como é crescer em meio à melancolia de uma cidade pequena do norte da Alemanha, e Line Hoven se expõe em detalhadas e expressivas imagens de „Schabkarton“ - técnica em que o artista raspa uma folha coberta por nanquim - com a história de sua família teuto-americana. A maioria dos títulos alemães aqui apresentados resultou de trabalhos de diplomação em escolas superiores, e também no campo teórico encontram-se múltiplos trabalhos de fim de curso, dissertações e publicações de cursos de habilitação que tratam do meio “quadrinhos“.

Gibis e graphic novels podem, portanto, contar histórias muito interessantes e autênticas, para um público exigente, e a razão para o recém-despertado interesse por eles talvez se fundamente em parte no fato de que as pessoas não esperam justamente isso deste meio e são surpreendidos positivamente pela variedade e singularidade de quadrinhos e graphic novels de qualidade.

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© Reprodukt

Aqueles que tiveram o interesse despertado por este artigo podem encontrar informações atuais em www.graphic-novel.info, na página das editoras Reprodukt (www.reprodukt.com), Edition Moderne (http://www.editionmoderne.de), Avant Verlag (http://www.avant-verlag.de) e Edition 52 (http://www.edition52.de), que constantemente oferecem novidades e curiosidades sobre o tema graphic novel. Diariamente, é possível encontrar novas tirinhas de diários autobiográficos de Flix no endereço www.der-flix.de E um sumário muito bom, ainda que já não tão atual, dos quadrinhos mais interessantes, com muitas informações de bastidores, é oferecido pela página www.top100comics.de. Quem se interessa por quadrinhos em inglês não pode deixar de visitar o blog www.comicsreporter.com e pode encontrar uma extensa lista de links em http://www.readyourselfraw.com/links/index_links.htm

Sebastian Oehler é administrador de empresas e trabalhou para diferentes editoras de quadrinhos alemãs, nas mais diversas funções.



[Traduzido por Eduardo Simoes]

 

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