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"O que sabemos é uma gota. O que não sabemos é um oceano" (Isaac Newton)
Escrever um dicionário do desconhecimento é uma ousadia – afinal de contas, não há como saber o que não se sabe. É por isso que o dicionário de Kathrin Passig e Aleks Scholz começa com algumas observações preliminares – ou, mais precisamente, dando a palavra ao ex-ministro da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld:
There are known knowns:
There are things we know that we know.
There are known unknowns: that is to say
There are things that we now know we don’t know.
But there are also unknown unknowns:
There are things we do not know we don’t know.
And each year we discover
A few more of those unknown unknowns.
À primeira vista, pode parecer desconcertante – mas, no fundo, há muita lógica. À maneira de um dicionário do conhecimento humano, é claro que um dicionário do desconhecimento depende da época em que é concebido. Há cem anos não se formulavam muitas das questões discutidas neste livro, como por exemplo a respeito das "partículas elementares" ou da "matéria escura". Outras, em contraste, permanecem em aberto: um exemplo matemático é a hipótese de Riemann, que diz respeito à distribuição dos números primos.
Do mesmo modo, seria difícil prever hoje as questões que ocuparão os homens daqui a três gerações – quando, por outro lado, as respostas a questões de hoje talvez já sejam de conhecimento geral, como supõem os autores na introdução ao livro: "Matéria escura? Ora, dirão eles, quem não sabe que a matéria escura é feita de superaxoquatriões sinistros? E como é que alguém, algum dia, pôde pensar que o sono não tinha função? É óbvio que os gatos não ronronam, isso não passa de ilusão acústica, e o manuscrito Voynich explica muito bem o que são os reis dos ratos" (pág. 11).
Os autores compilaram um "dicionário" apenas aparentemente sistemático (por graça da ordem alfabética) de 42 verbetes, alguns dos quais de fato discutem alguns dos mais importantes problemas científicos ainda por responder nos campos da física, da astronomia e da matemática. Em contraste, há também questões ainda não incorporadas aos cânones científicos, como certos comportamentos e sentimentos humanos (gorjetas, odores desagradáveis, interesses sexuais) e determinadas esquisitices da biologia, como o estranho costume de alguns pássaros que se esfregam em formigas ou os enigmáticos hábitos reprodutivos da enguias.
Muito embora os temas sejam de fato muito distintos e se apresentem ao leitor de forma não sistemática, todos os "verbetes" são muito informativos e esclarecedores. Alguns dos temas constituem, por si sós, uma surpresa, pois não se pensaria que, nesses campos, ainda houvesse algo por descobrir. As "dimensões humanas" são um bom exemplo, uma vez que julgamos saber que nossas própria dimensões são determinadas pela genética e por fatores sociais como alimentação e saúde. Ora, muitas pesquisas mostram que há muitos fenômenos de crescimento que parecem contradizer essa suposição e que fazem pensar em fatores suplementares e ainda desconhecidos que desempenham papel importante. Se, ao longo dos últimos séculos, os europeus vêm ficando cada vez mais altos, o mesmo não acontece com os norte-americanos. Em comparação aos europeus mais altos – noruegueses e holandeses –, os norte-americanos são, em média, dez centímetros mais baixos. Em meados do século XIX, a situação era inversa. Por que, a partir de meados do século XX, os norte-americanos pararam de crescer – e não apenas os mais pobres, mas os mais ricos também?
Uma outra questão que dificilmente julgaríamos em aberto diz respeito à natureza do dinheiro. Mas a coisa se complica quanto tentamos determinar a quantidade total de dinheiro em curso. O que diz precisamente o conceito de "oferta de dinheiro"? Deve-se levar em conta apenas a quantidade de dinheiro vivo em curso? Ou também os créditos bancários, que elevariam em muito o montante total? E o que dizer de ações e títulos?
Há questões sobre as quais mais valeria nem saber que as respostas ainda não são conhecidas em detalhe: assim, por exemplo, até hoje não se explicou o mecanismo bioquímico pelo qual um paciente cirúrgico cai em anestesia geral durante uma operação. Os anestesistas sabem muito bem como atingir esse estado, ignorando, contudo, o porquê. O mesmo acontece com alucinogêneos como LSD ou mescalina, que também afetam os sentidos e alteram o aspecto das coisas tais como as percebemos em nosso estado, digamos, natural; não sabemos, contudo, como essas substâncias – também chamadas psicodélicas – funcionam e por quê não conduzem à dependência química.
É assim que um tema intrigante conduz ao próximo, inspirando o desejo de ler e refletir adiante. Os autores expõem essas questões complexas de modo ao mesmo tempo informativo e divertido. Não é que se chegue a compreender funções matemáticas complicadas por obra de uma comparação com máquinas de fazer salsicha – mas ao menos teremos uma idéia vaga do que está em jogo quando, na próxima reunião social, alguém falar da hipótese de Riemann ou do problema P versus N/P. De resto, nunca se sabe, e é bem possível que, daqui a duas gerações, qualquer aluno de escola primária saiba tudo sobre a escrita do Indo...
Heike Friesel
Fevereiro de 2008
[Traduzido por Samuel Titan]
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